4 de fevereiro de 2010

Fumaça

Com o elmo escarlate embaixo dos braços, Bado abriu caminho pelas cortinas de seda do pavilhão de Sontag, recém erguido nas planícies da Gália. Uma fumaça incomum, densa e opaca, subia de velas espalhadas pelo chão e se concentrava nas partes altas da construção; amontoados em um canto, dois flautistas improvisavam música em baixo volume, melodia feita de notas polifônicas e desencontradas. O macaco sorriu, nervoso. Respirou do ar pesado.

A comitiva já estava em posição, à sua espera, amigos sentados no chão diante da comida espalhada no tapete persa. Sontag, recém-vindo de guerras bárbaras, herói de muitos louvores, o recebeu, agora de pé e de braços abertos, com palavras doces de boas vindas.

Falar em despedidas, naquela noite, não era uma possibilidade. Em acordo silencioso haviam decidido deixar tais palavras difíceis apenas para as dimensões silenciosas do pensamento. Assim, contaram histórias do antigo Palácio Azzuro e das hordas desmanteladas de Avec. Riram e choraram juntos lembrando-se de dias de mais glórias e de menos desconhecimentos.

Naquele momento, Shido era apenas uma sombra rondando o pavilhão, invejosa e esquecida.

Constelações deslizaram pelo firmamento e, aos poucos, uma luz alaranjada anunciou a chegada do sol -e, com ele, a iminência do adeus. Entre grunhidos, os macacos se levantaram, esticaram os músculos quase adormecidos e foram receber no rosto o vento frio da manhã, no exterior do pavilhão. A geada havia transformado as hastes da grama em pequeninas lanças de gelo.

Um a um, montaram seus cavalos e rumaram para o leste, de volta à vida que tinham deixado por alguns dias. Não olharam para trás, pois não era esse o costume entre eles.

Sontag ainda se demorou um pouco ali, em silêncio. De tempos em tempos dirigia seus olhos grandes para as montanhas distantes da lutetia parisiorum. Bado, com as mãos desajeitadas, não sabia se as deveria pousar nos ombros do amigo ou não. De repente, os dedos pareciam grandes demais para acalentar um velho conhecido.

Não demorou para que Bado fosse o único ali, diante da tenda agora vazia a não ser por boas lembranças. Sentou-se no chão e deteve-se a observar a agora líquida água do chão refletir a luz de um sol tímido.

Fechou os olhos e recitou de cor uma poesia que vinha ouvindo há meses em seus sonhos -às vezes em sussurros, às vezes em gritos desesperados. Desejou que ela tivesse sido escrita de verdade, e não sonhada. Mas sabia que esse pensamento era de uma grande frivolidade.

"These our actors,
As I foretold you, were all spirits and
Are melted
into air, into thin air:
And, like the baseless fabric of this vision,
The cloud-capp'd towers, the gorgeous palaces,
The solemn temples, the
great globe itself,
Yea, all which it inherit, shall dissolve
And, like
this insubstantial pageant faded,
Leave not a rack behind. We are such stuff
As dreams are made on"

23 de janeiro de 2010

Ainda te amo

Para o macaco que não consegue parar de chorar as lágrimas parecem ser as evidências de que o amor não se desfaz.

29 de dezembro de 2009

Haikai do ódio

Quando não sobrou um único plano para ser frustrado, Shido decidiu dedicar-se não mais a tentar encontrar soluções para a terrível queda do Reino de Avec -- em vez dessa obstinação já fracassada, optou por dar outro tipo de resposta ao destino que lhe coubera.
Em um caderno surrado, antigo presente de Bado, colocou-se a escrever poesias malditas, repletas de ódio e trevas.
Nunca havia pensado em seguir pelo caminho das letras -- e de repente lhe parecia o único possível.
Quase conseguia enxergar o rancor que, até então, manifestava-se apenas como fumaça invisível e amorfa, sentimento
Caso se esforçasse, talvez pudesse até tocá-lo...

Foi em um haikai, e não em uma longa poesia, que encontrou a expressão máxima de seu desgosto.
Condensou em três versos o que pensava ser toda a desgraça da máquina do mundo.

Você disse que me amava
Eu acreditei
Agora sou folha, e voo

Sorriu pela primeira vez desde que conhecera Lvcien.

10 de dezembro de 2009

Heavenly lies


Cautiously he laid his warm left hand on mine and looked into my eyes. I felt anxious for what was coming next. 'You're a ray of light shining upon my darkness', he said, and I cringed.

We'd had some glasses of wine earlier that noon and now he was just about to cross the line into drunkness. Unfortunatelly, his self control was exactly enough so that he'd kept himself always in the safe territories of conscience.

But unprecendently dizzy as he was, he looked like a god to me, far more handsome than ever. There was something really irresistible about his flaws, for that they were rare.

He suddenly stood up and so did I. Then he put both his hands in my trembling shoulders, waited for some heavenly courage to descend on him and, when I thought he was about to finally tell me what he had in mind all those years, he just groaned. Smiling, he left.

I was never sure of which part of him I missed the most. Anyway it was always this remembrance that I had in mind when I thought about the pain of his departure. Always him looking me with his quasidrunk eyes. As if he was really near telling me a life secret.

Which he never did.

5 de dezembro de 2009

Presa

Con los hilos amorosos cortados, Bado se curó momentáneamente de su amor por Shido
(así que el amor es una enfermedad, como lo escribió Marin en una de sus cartas)
Todavía sentia miedo de tener una recaída y una vez más zambullirse en malos humores
Para evitarlo hice el que Marin le habia enseñado: construyó una presa
Erguió altos muros de hielo para contener las oleadas de sus sentimientos devastadores
Y así se detuvo de tener contacto con lo que le hacia tan malo

Por algunas semanas pensó que estaba libre de volver a ser melancolía en vez de mono
Incluso llegó a cazar una vez más, como un monstro
Mató a un conejo inocente que no comió

Pero el tiempo es caliente
Y derretió los muros de indiferencia con los quales Bado se habia protegido
Como una pesadilla potencializada por la altura de la queda, la água de su propia tristeza le inundó

Ahora no era ni melancolía, ni mono -- pero un mono melancolico
Lloró sorriendo

26 de novembro de 2009

Las relaciones peligrosas

Bado aceptó el convite de Marín
Viajó al Kindukush en el fin de enero escondido en las sombras de los muertos, cubierto por una capa negra
Cuando llegó a las montañas procuró por la sacerdotisa, que por fin se reveló
Con una tijera en mano caminó alrededor de Bado susurrando palabras en una lengua desconocida
Cortó uno a uno los hilos que unían Bado a Shido
Y también los que le unían a Sega
No salió sangre de las heridas, pero algo diferente
Algo que Bado no vió, sólo lo sentió.
Y el dolor fue increíble.

5 de outubro de 2009

Macaco do Congo


Com o coração exausto de bater descompassado, Bado voltou às florestas úmidas do Congo, agora vazias.
Instalou-se em uma caverna próxima do local em que havia repousado o Coração da África, antes da queda do principado de Lvcien.
Bado passou a banhar-se nas águas lamacentas de um rio preguiçoso, sem nome, e alimentar-se da pouca carne que encontrava, entre corajosos e desavisados.
Às tardes, desanimado, subia nos galhos mais altos das árvores mais antigas e se punha a suspirar lá de cima.
O sol se deitava sem demora sob o verde podre das folhagens a perder de vista.
E pensar que há poucos meses ele fora amante do general mais cruel de Avec,
A aljava que tantas vezes recebera a flecha envenenada de Shido...!
E então fizera amor na Palestina com um mendigo vestido de príncipe e deixara de assistir ao casamento do rei judeu.
Agora -- nada.
Macaco velho procurando o cinturão de Órion em um céu de estrelas inéditas, em meio ao vapor noturno.
Quer vesti-lo, mas não o encontra.
Está nu, na transição entre duas épocas tumultuadas.
Então, de repente, vê passar pela floresta escura um leão velho e resignado.
O animal segue devagar, levantando e abaixando os ombros pesados e pontudos, suspirando.
Passa por ele como se não o tivesse visto (talvez não tenha mesmo).
Seu pelo está seco e desgrenhado, e a juba agora é só testemunho de um passado outrora glorioso.
Bado assiste ao rei desaparecer em uma curva da trilha da floresta, cansado.
Vai embora como um mistério não resolvido.
Deixa para trás apenas o cheiro de carniça que o acompanha.
E o macaco vê naquela experiência um sinal inequívoco de muitas coisas.

A dor ensinada

A maior lição aprendida com Sega não fora, como Marin pensou, a de que o amor passa rápido, como brisa atlântica
Não. Mas o contrário.
Nisso, e praticamente apenas nisso, Bado se mostrou mais sábio do que a sacerdotisa do Hindukush.
O macaco logo percebeu o que havia de oculto naquilo tudo, nas noites incríveis passadas em uma caverna no norte do mundo.
Por detrás do significado óbvio -- a inconstância de um sentimento, capaz de desaparecer aqui e de ressurgir ali -- estava uma camada mais verdadeira de interpretação.
O amor outrora depositado em Shido não fora extinto.
Tampouco brotara em Sega como semente espontânea, não fecundada, sémen de masturbação
Bado agora sabia organicamente que o amor jamais passa, porque ele é tudo o que há.
É nele que as outras coisas passam.
E toda a paixão que havia tido Shido por alvo agora mirava em Sega, sem prejuízo algum.
O mesmo sentimento, porém reconstruído.
Agora, em vez de o babuíno escrever cartas de amor a Shido, ou a Sega, ou a ambos -- agora Bado riscava no pergaminho mensagens a si mesmo.
Aos poucos, apaixonou-se por sua imagem refletida em um ribeirão dentro da floresta fechada.
Seu coração de macaco pulsando sempre alucinado embaixo da camada de pelo sujo.

25 de setembro de 2009

Sangre


Now blood had the taste of blood, for it was blood
Nevertheless, this was brand news to Shido, for whom it had untill now the taste of wine
A cabernet sauvignon made from the grapes of hell -- sweet as vengeance, hatred and envy
Warm as murder
Dry as treason and cozy as unrestness

With the departure of Bado things suddenly returned to what they were supposed to be
Distance from love had put an end to an ancient uncast spell

Now Shido was once more a monkey -- not the leader of some blood thirsthy soldiers, but and old and febble baboon full of scars and regrets

Now the sun was just a hot spot on the sky, in the place of some misterious signal of supremacy
With a defeated smile, the lieutenant walked away from those violent ilusions

18 de setembro de 2009

Doença da paixão

Foi com engenhosidade que o amor aproximou-se de Bado. Disfarçou-se a princípio de bálsamo, e derramou-se sobre os pelos desconfiados do macaco de tal maneira que desarmou-lhe de imediato. Em uma semana já havia se instalado nele -- agora como uma doença maligna roubando-lhe o fôlego à noite. Mais ardilosa que uma enfermidade fatal, porém, o sentimento fez de Bado um Prometeu acorrentado, sempre sofredor mas nunca morto. E dormir tornou-se um martírio, de repente.

15 de setembro de 2009

Desencontros inesperados

Bado waited for three days in the seashore of Gaza, where he had settled with Sega that they would met -- a contract written in ink in dozens of scrolls


While he was waiting, he remembered himself of all the silent promises of the earlier months


Smiling before such sweet and luxurious thoughts he licked the sharpen teeth


There was a discovery right there that now was evident: it is possible to survive!


The blue sea caressed the beach with a steadiness strange to the beating pulse of the monkey

*


Sega unfolded his books between hatred tears

Putting the hand in the chest he noticed: he did not suffer from broken heart, but from unavoidable frustration

Passion born from the possibility of passion -- in all, equivalent to passion

But empty from the proximity of an earlier passion

Under the holy sun of Palestine, he lied down in the sand and let himself to be dirt


*

He found two sorcerers hidden on a coastal cave -- Marin's aprentices

The monkeys, with serenity, revealed that they already knew Bado's serie of unfortunate events

Actually, they were there because of his sad fate (they knew all about it...)

With obsidian daggers the sorcerers cut the ties that united Bado to Sega

They also cut the threads of blood that kept Bado connected to Shido

Took from his flesh all of his unconcluded loves

And left only the essencial: what?

1 de setembro de 2009

Encontros inesperados

A princípio Bado não quis deixar seu esconderijo em Masada, Israel
Mas o chamado foi de uma imperiosidade transparente -- e irresistível
Juntou-se a Sega no pier, resignado mas transbordando curiosidade
Lado a lado, os macacos observaram o por do sol refletido nas águas turvas do Mar Morto
Foi a primeira coisa que viram juntos, estranhos um ao outro
Embarcaram no dia 19 de dezembro e subiram o Rio Jordão em um barco de madeira
Remaram contra a corrente
Dias depois estavam escalando as Colinas de Golã, exaustos
Dois pontos marrom-claros caminhando no amarelo leonino das montanhas
Chegaram sem demora ao dedo da Galiléia, à cidade abandonada de Metulla
Por todos os lados, os campos destruídos do antigo Líbano se estendiam
Abraçados, observaram uma hecatombe anunciada
Demorou, mas perceberam que uma corda fina os havia unido irremediavelmente
Fina demais, transparente -- nílon indestrutível
Uma linha que saía da carne de um e terminava na do outro, emaranhada nos seus nervos e vasos sanguíneos
Um fio que poderia significar muitas coisas, quase todas, e ao mesmo tempo não ter nenhum significado
Aos dois, o sentido de tudo aquilo não era senão enigmático
Uma promessa de dias bons ou ruins
Possivelmente excelentes
Separaram-se em Santa Joana de Acre, dias depois
Bado mergulhou no Mar Mediterrâneo e nadou até Haifa, enquanto Sega o observava de cima das muralhas da cidade antiga
Passaram-se três meses até ouvirem falar um do outro novamente
Bado escrevera uma carta breve, mas verdadeira, a Sega
Que começava com "Meus livros, embrulhei-os em roupas sujas"
E terminava com uma promessa.

*

Al comienzo Bado no quiso dejar su esconderijo en Masada, Israel
Pero el llamado fue de una imperiosidad transparente -- e irresistible
Se quedó con Sega en el muelle, resignado pero transbordando curiosidad.
Lado a lado, los monos miraron la puesta de sol reflejado en las aguas turvias del Mar Muerto
Fue la primera cosa que vieron juntos, extraños uno al otro
Embarcaron en el 19 de diciembre y subieron el Río Jordán en un barco de madera
Remaron contra la corriente
Días después, estavan escalando las Colinas de Golan, exhaustos
Dos puntos marrón-claros caminando en el amarillo leonino de las montañas
Llegaron sin demora al dedo de Galilea, a la ciudad abandonada de Metulla
Por todos lados, los campos eliminados del antiguo Líbano se extendían
Abrazados, los dos miraron una hecatombe anunciada
Demoró, pero se percataron de que una cuerda fina les había unido irremediablemente
Demasiado fino, transparente -- nilón indestructible
Una línea que salía de la carne de uno y terminava en la del otro, enmarañada en sus nervios y vasos sanguíneos
Un hilo que podría significar muchas cosas, casi todas, y al mismo tiempo no tenía ningún significado
A los dos, el sentido de todo aquello no era sino enigmático
Una promesa de días buenos o malos
Posiblemente excelentes
Se separaron en Santa Joana del Acre, días después
Bado se tiró al Mar Mediteráneo y nadó hasta Haifa, mientras Sega le observava sobre las murallas de la antigua ciudad
Pasaron tres meses hasta que oyeron hablar uno del otro una vez más
Bado escribió una carta cortita, pero verdadera, a Sega
Que empezaba con "Mis libros, los envolví en ropas sucias"
Y terminaba con una promesa

20 de agosto de 2009

Estar listo es todo


Una chica mira el mandril con los ojos de quien desconoce algo
El mandril, a su vez, la ve con ojos de sangre
La mano en el vidrio es un señal de una tentativa de comunicación
Pero no hay lenguaje en que humanos y macacos puedan hablarse con dignidad
La muerte, talvez
La muerse, sí, es un lenguaje posible -- quien mata esta decindo algo
Los ojos de sangre brillan, locos
Absurdamente locos

La República de las Bananas


Fue con mucho dolor que Bado dice adiós a Shido, despúes del fin del império Lvciniano
Pero con la ruptura de todo un proyecto maravilloso ya no habia razón para quedarse alli
Su obligación era partir.
Es decir, debia dejar Shido y llevar consigo lo que los unia: un amor casi salvaje
Por que ahora, ahora todo y cualquier sentimiento es un agujero
Un agujero en la piel, y la sangre fuje
Un agujero en el espejo, y las imágenes no se reflejam más
Un agujero en el vaso de vino, y el liquido rojo escurre sin retorno possible
No.
Resistir es un deber.
"Adiós, mis ojos violentos".

14 de agosto de 2009

Sumiço

Não. As cartas que recebera de Dubrovinic não estavam equivocadas. Shido abriu furioso as portas do Palácio Azurro e urrou pelos corredores, enquanto uma multidão de macacos chorava prostrada pelos cantos, devolvida a suas primitividades. Lvcien se fora e, com ele, algum encanto havia evaporado da superfície da Terra e agora pairava no ar como névoa.

Nenhum recado ou indício fora deixado para trás. Shido, outrora o dente mais afiado da boca de seu alfa... reduzido. Um canino sem gengiva de que despontar.

A chegada do tempestuoso general foi seguida pela de tantos outros cortesãos - agora apenas macacos imponentes. Marin veio montada em um camelo e pendurou espelhos por todos os aposentos. "Para que vejamos a nossa dor em seu reflexo invertido." Olaf, outrora príncipe, agora poeira, veio trazido por um riquixá e deitou-se na cama desarrumada de seu pai. Três gorilas muy sábios vieram a pé e cantaram elegias melancólicas.

O Babuíno Voluntarioso não veio de lugar algum. de repente, estava entre o séquito desolado, sibilando por entre os dentes apodrecidos. Não respondeu às súblicas de Shido de que apontasse um caminho entre tantos - para que seguissem e vencessem.

Bado não entrou no Palácio. Não suportaria a dor de ver esfacelado um sonho que um tia fora tão glorioso. Sentou-se em uma colina distante e esperou, observando o monumento no horizonte próximo. Shido logo juntou-se ao amigo - amante - nada.

- Então é essa a sensação de ser um beta sem um alfa?, o general perguntou, com uma agressividade carinhosa típica de seus lábios.
- Não. Está apenas começando, Bado respondeu, com lágrimas nos olhos.


Aniquilação

Para Bado, assistir à partida de Shido foi como ver ir embroa sua parte mais feroz. A ausência do amante - a súbita falta até mesmo de seus pêlos tingidos de sangue - era sua própria aniquilação. o Bado dos últimos anos, todas suas palavras e gestos, era o Bado dominado por seu alfa, um macaco que, sem Shido, cessava de existir.


Entre lágrimas, procurou Marin embaixo de uma oliveira morta. Pediu que lhe ensinasse uma nova maneira de viver consigo - pois ter sido privado de sua dimensão agressiva, a que reservara para Shido, era ter se tornado absolutamente inofensivo. E, na savana, sobreviver é sempre uma questão de escolha.

20 de julho de 2009

Finalmente termina


Nunca antes foi tão desesperador.

3 de junho de 2009

Macaco purulento

Shido agora era o campeão das savanas. Cavalgava como uma lenda por entre seus soldados, sorrindo, e seu suor cheirava a sangue. Em pouco tempo foi escolhido pessoalmente pelos dedos afiados de Garrastazu para liderar as campanhas ao sul, em busca do Coração da África. Despediu-se de Bado com um aceno provocante.

Mas quis a história que o grande assassino não cumprisse seu objetivo. Mal tinha entrado nas sombras das primeiras árvores do Congo e logo caiu irremediavelmente enfermo. Os gorilas muy sábios, a quem recorreu imediatamente, diagnosticaram-lhe uma variante perigosa de herpes e pediram que voltasse com urgência ao Palácio Azul para tratar-se com os feiticeiros de Lvcien.

Foi lá que,  meses depois, Bado o encontrou, deitado embaixo de uma figueira, enrolado em cobertas azuis. Seus olhos apontavam para o céu de maio, desconsolados, e não deram nenhum sinal de terem notado a presença do velho amigo.

O rosto de Shido estava tomado pela doença. Embaixo dos pêlos agora ralos, placas amarelas, recheadas de pus, secas, horríveis, davam o tom das feições do macaco. As feridas subiam dos lábios aos contornos das narinas, para reaparecerem nas dobras das pálpebras e nas bochechas pontiagudas. Shido suspirou.

Bado sentou-se ao seu lado com os olhos cheios de lágrimas. Um campeão agora prostrado, reduzido a um corpo agonizante. Que fácil era tomar-lhe toda a glória! Da antiga empáfia do amante, pouco via agora em Shido. Talvez os olhos, ainda úmidos e sagazes, conservassem um pouco do orgulho assassino. Mas...

Beijou-lhe a boca.

26 de março de 2009

As traições despercebidas

Bado demorou-se alguns anos pensando em como seria cometer uma pequena traição. Um beijo à noite, embaixo de um poste piscando alucinado, em uma rua deserta; sexo sem penetração, de improviso, os dois de pé, encostados na porta de entrada de um apartamento bagunçado; as mãos dadas em uma apresentação vazia de teatro, de um grupo amador. Mas o ato em si era bastante fácil de imaginar, apesar das quase infinitas possibilidades, em tantos diversos níveis de culpabilidade. O difícil mesmo era visualizar a bifurcação de dois caminhos, um levando à traição e outro à fidelidade -- onde é que estava esse momento de escolha, em que teria a chance de tomar a decisão? Não o encontrava. 

E assim seguiu, sem nunca desviar-se da trilha há tanto tempo tomada. Até que percebeu que não havia o tal instante decisivo, ou se havia o tinha perdido de vista. De repente, caminhava lado a lado de Shido em uma rua repleta de lixo empilhado, embaixo da garoa gelada que amenizava o calor da estufa daquela cidade que, de tão quente, já se parecia com as savanas deixadas para trás. Tinha aceito um convite inocente, um encontro entre dois amigos. Mas nunca tinham sido amigos, somente amantes em potencial, e a coisa toda ganhava ares de libertinagem a cada passo que davam.

Passaram duas horas juntos bebendo whisky sem gelo em copos de requeijão, deitados no sofá. Os pêlos dos braços se emaranhavam, mas as peles jamais se encostavam. Conversaram como namorados. Dali ganharam as ruas de novo e subiram os caminhos vicinais a pé, até chegarem à esquina em que se despediram com um beijo no rosto e um abraço transbordando cumplicidade.

À noite, sonharam um com o outro e, no dia seguinte, reencontraram-se por acaso enquanto tomavam café, sozinhos. Trocaram sorrisos de vigarista e deram explicações um ao outro de onde tinham estado durante a manhã e o que tinham feito, como se fosse de praxe justificarem-se mutuamente.

Foi só no dia seguinte que Bado percebeu -- estava feito! Sem penetração nem beijo dado às escondidas, sem as mãos se procurando no escuro, sem olhos suplicando perdão, sem juras de amor e promessas a nunca serem cumpridas. Sem nada. Era exatamente aquele o gosto da traição seminal.

27 de agosto de 2008

Céu aberto

De repente as nuvens se cansaram das paisagens africanas e decidiram se retirar para o Atlântico e para o Índico, onde causaram as mais tenebrosas tempestades e afundaram os mais orgulhosos navios.
Parou de chover nas florestas úmidas do Congo.
Agora, o Coração da África é revelado pouco a pouco para todos os que visitam o território sagrado não mais protegido pelas folhas das árvores, que já se secaram.
Os gorilas muy sábios -- de quem os ingênuos aguardam alguma solução milagrosa -- não esboçam nenhuma reação.
E os corações apaixonados batem descompassados entre si, irremediavelmente.
E nada parece ser capaz de acalmar os anseios das almas dos macacos, todos eles -- até mesmo Shido se inquieta, durante sua campanha desastrosa na Itália.
E a floresta se transforma em deserto, e os espíritos se transformam em pedra, o mundo se transforma, e na era que se inicia nada é reconhecível ou tem cheiro de lar.

3 de julho de 2008

Closet

- Sr. e Sra. Fiorucci, eu presumo? – Catarina Hildegard perguntou, devagar.

- Exatamente – respondeu-lhe a fêmea de olhos cheios d’água, que Catarina e seu marido, Leon Hildegard, por dedução sabiam chamar-se Helena.

- A que devemos... – Leon começou a falar, mas não sabia como completar a frase.

- O que vocês estão fazendo deitados no meu closet? – perguntou Catarina, mais rápida que seu esposo.

- Nós já estamos de saída – disseram ao mesmo tempo o Sr. e a Sra. Fiorucci. Mas a voz de Marco não era tão forte quanto a de Helena, e alguma coisa escapou dele naquele instante, silenciosa. O casal Hildegard compreendeu imediatamente o que estava se passando.

Helena levantou-se e, depois, ajudou Marco a, por sua vez, levantar-se. Eram uma bela dupla, dois espécimes muito bonitos. Seus pêlos mantinham ainda o brilho da juventude – mas eles já não eram jovens há alguns anos. Estavam constrangidos. Sem dizer mais nada, saíram da suíte, passaram pelo corredor azul, atravessaram o hall de entrada e foram até a grande porta de madeira. Helena pousou a mão na maçaneta, virou-se para trás e encarou Catarina. Disse-lhe:

- Sabe, fomos muito felizes aqui. É uma pena, realmente uma pena, termos que irmos embora.

- Os corretores de imóveis nos disseram que tínhamos até o meio dia para nos despedirmos do apartamento – explicou o sempre polido Marco, olhando em seguida para seu relógio de pulso, em que ainda faltavam alguns minutos para o instante em que sua casa passaria a ser de outrem.

Depois que os Fiorucci pegaram o elevador, o casal Hildegard suspirou. Ambos conheciam muito bem os augúrios, e ambos já tinham compreendido a mensagem muitíssimo bem. Abraçaram-se na beirada da janela que tinha vista para o Hyde Park. Com os olhos fixos na mesma árvore, beijaram-se.

17 de junho de 2008

Sarajevo

De olhos fechados, o mandril sonhou com Sarajevo
Não que conhecesse aquela cidade onírica, apenas gostava do som da palavra
Na escuridão confusa do sonho, os olhos negros viram maravilhas feitas de pedra e dor
Torres pontiagudas, campanários, minaretes, zigurates -- coisas que nem eram
Os relógios apareciam pendurados de ponta-cabeça, nas paredes descoloridas
E ninguém se olhava nos olhos
As estradas de terra naqueles anos estavam enlameadas e vazias
Chovia como se fosse a última vez
As rodas do coche de Mme. Blavatski quase atolaram no caminho
Quase
Mas foi com pompa suficiente que a líder dos macacos metafísicos chegou à cidade
Seu vestido velho sujo de lama
Foi recebida pelo boticário local, que beijou-lhe as mãos efusivamente
Sóbria, falou à população local sobre coisas que, até então, eram conhecidas apenas em poucas cidades africanas
Os miseráveis choraram diante de tais pensamentos inéditos
Deixaram de temer os porvires de cataclismas -- passaram a desejá-los
Foi quando Mme. Blavatski, satisfeita, voltou para seu coche
Deixou a cidade-pináculo
E viajou imediatamente para dentro da consciência do mandril adormecido
Onde a barra da sua saia sujou-se não de lama, mas de conflitos

O macaco acordou de sobressalto.

21 de maio de 2008

Flores amarelas

'I would rather have the yellow flowers, if that is not a problem to you', spoke Rafiki, the ancient mandril, to Frederic 'Stupor Mundi', cruzader from western Europe and king of the holy city of Jerusalem. They both frowned.

'That is perfectly adequate', Frederic answered, dissipating all the tension that there was on the atmosphere. 'So it will be yellow flowers, after all'.

'Yellow flowers it will be, indeed', Rafiki ended the conversation, satisfied. The deal had been exactly what it should have been. Except from the fact that he himself hated yellow flowers.

But the sultan of Istambul got really happy when he first saw the marvelous and bright new garden on the next spring. He was the only one who did not know that choosing the right flowers meant a lot to those religious monkeys. And that having the monkey's suport was very relevant on that bloody land.

---

"Eu prefiro as flores amarelas, se não for um problema para você", disse Rafiki, o mandril ancião, para Frederico "Stupor Mundi", cruzado da europa ocidental e rei da cidade sagrada de Jerusalém. Os dois franziram o cenho.

"É perfeitamente adequado", Frederico respondeu, dissipando toda a tensão que estava na atmosfera. "Então serão flores amarelas, no final das contas".

"Flores amarelas serão, realmente", Rafiki terminou a conversa, satisfeito. O acordo tinha sido exatamente o que deveria ter sido. A não ser pelo fato de que ele próprio odiava flores amarelas.

Mas o sultão de Istambul ficou realmente contente quando ele viu pela primeira vez o maravilhoso e novo em folha jardim, na primavera seguinte. Ele era o único que não sabia que escolher as flores certas significava muito àqueles macacos religiosos. E que ter o apoio dos macacos era bastante relevante naquela terra sangrenta.

11 de maio de 2008

Grunhido I

O Babuíno Voluntarioso abre sua boca forrada de dentes e grunhe:

Há macacos que não enxergam a verdade na frente deles; não sabem que a verdade é uma pulga mordendo a pálpebra; uma mordida que se sente mas nunca se vê; esses macacos estão destinados a tantas perdas; um dia se arrependerão de todas as vezes em que tomaram por desimportante tantas coisas essenciais.

30 de abril de 2008

Fora da bolha

De mãos dadas com sua mãe, o pequeno Julian atravessou as últimas árvores da selva. Embarcaram em um jipe e ele logo dormiu embalado pelo sacolejo da estrada imaginária -- não havia nada ali que pudesse receber esse nome.

Quando acordou, já tinham chegado à savana. O motorista os deixou embaixo de um baobá de poucas folhas e começou a se afastar -- mas o macaquinho não o acompanhou com os olhos, porque estava, no momento, com a pele da pálpebra esticada ao seu máximo para garantir que nada, nem um fio da sobrancelha, ficasse entre sua íris e o enorme elefante a sua frente.

O gigante cinza olhou para eles como se pudesse enxergar o futuro de tal forma que já os visse mortos, somente pó.

De um lado para o outro, dezenas de gazelas corriam. Saltavam com tanta graciosidade que Julian comentou com sua mãe que pareciam anjos. Mas isso foi antes dos guepardos se aproximarem - então, a caçada deixou o pequeno aterrorizado.

A vegetação rasteira era tão laranja que parecia ser a pele dos guepardos, só que menos perigosa.

O pequeno percebeu que gostava muito mais da selva que da savana. A selva, é claro, não era nenhum oásis. Mas alguma coisa havia de diferente -- tinha de haver, porque ele sentia que sim, e ainda era jovem o suficiente para acreditar que era sensível somente às coisas verdadeiras. Havia alguma coisa de desesperada na savana, pensava. Talvez fosse aquela imensidão quente sendo o palco de tantas coisas ao mesmo tempo. Ou o sangue que escorria constantemente de todas as feridas abertas.

Gemeu diante de tantos pensamentos.

Sua mãe segurou-lhe a mãozinha com força e sussurou no seu ouvido: "meu filho, o truque para se caminhar na savana é um só: fingir não ter medo. Os gnus trotam alucinados e podem pisar em nós; os leões devoram o que bem entenderem; hienas destroçam a carniça deixada de lado; mandrils matam filhotes e o sol, o sol é o mais cruel, o sol queima a tudo como se fosse um castigo constante -- isso é a savana, e precisamos fingir que estamos acostumados a ela. Fingir, somente, porque, é claro, é impossível que alguém esteja acostumado a viver assim, diante de tanta esterilidade e violência".

O macaquinho entendeu de imediato a teoria da mãe, ou pensou ter entendido -- perspectivas que, na situação, equivaliam-se. Foram, juntos, até a árvore do macaco ancião. Lá, ouviram palavras que não teriam dificuldade para repetir quando voltassem à selva. Tinham pressa, agora.

27 de abril de 2008

Pernas

Duas batidas na porta foram o suficiente para que se levantasse e deixasse a amante estirada na cama. Foi ver quem batia. "Segure esse pensamento", disse a ela, para garantir que pudessem continuar a brincadeira do ponto exato em que havia sido interrompida -- e evitar ter de fazer, mais uma vez, os rituais preliminares.

Do lado de fora da árvore-casa, estavam dois macacos vestindo farda de guardiões. Seguravam o cap nas mãos. "Sinto muito, mas Marin foi assassinada na última sexta-feira. Uma cimitarra enferrujada, ou uma alabarda, ainda não se sabe ao certo. Achamos que você deveria ser o primeiro a saber". Fechou a porta. Encostou-se em uma das paredes do hall, fechou os olhos e tentou recuperar o fôlego. Marin, morta. E àquela altura do campeonato, com tantas coisas já degringoladas! Parecia-lhe um golpe cruel demais às suas últimas esperanças.

Olhou para o quarto e viu, através da porta aberta, as pernas da amante. Odiou-os, os dois membros peludos esticados -- como se a culpa de a revolução estar sendo sistematicamente frustrada fosse das pernas, e não da experiência milenar de Lvcien e dos exércitos de Avec. Pensou em matar a amada. Depois, percebeu que era outra pessoa que deveria ser extinta - Shido. Ele, e somente ele.

A não ser que...

21 de abril de 2008

Macaco de Israel

"Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, que se resseque a minha mão direita. Apegue-se-me a língua ao paladar, se não me lembrar de ti, se não preferir eu Jerusalém à minha maior alegria."
O macaco tinha se esquecido da cidade sagrada, mas não conseguia olvidar aquele salmo. Olhava para as duas mãos peludas com uma sensação curiosa de medo, mas não de culpa. Havia abandonado a capital sagrada para engajar-se nas lutas de Paris, para enfiar-se nas trincheiras profanas da pólis da luz. "Meu filho, essa batalha nada tem a ver contigo, um macaco de Israel". "Querida mãe, a estrela de David brilha na Europa tão forte quanto brilha na Judéia; deixa-me ir, e prometo que volto". A macaca velha deixara -- as recentes conquistas da Guerra dos Seis dias tinham derretido o coração dela. E cá estava ele, nas margens do Sena afugentando pombos. Chegara tarde demais, os rebeldes já tinham sido reprimidos. Não encontrava em lugar algum os olhos brilhantes dos revoltosos. "Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém", murmurava com tom irônico, "que se resseque o meu coração, a minha alma e todo o mais, menos a minha mão, para que nela eu ainda possa usar meus anéis faustosos". Tinha se tornado um filósofo, de repente, embaixo das nuvens francesas, descansando na sombra de Notre Dame, a senhora dos cristãos. Mas sabia -- os melhores filósofos são os árabes. Seu melhor amigo, macaco companheiro de uma infância gostosa passada no Neguev, era hoje um dos sufistas mais notáveis de Teerã (seu pai tinha sido um leal servidor do império Otomano, porém, e detestava os mitos abássidas e os sussurros a respeito de Imanes Ocultos). O islamismo permitia algumas loucuras a que o cristianismo e o judaísmo já tinham se tornado imunes, percebia. Mas o racionalismo francês não era imune a nada, e tinha levado o império carolíngio àquela situação tenebrosa -- jovens trancafiados em casa enquanto os gorilas de De Gaulle marchavam livres nas ruas reurbanizadas. Não que na terra de David a coisa estivesse menos enegrecida. O gás lacrimogêneo dos judeus, na terra sagrada de Jerusalém, era a própria atmosfera, e nas pedras desgastadas do último muro (dádiva do Imperador Adriano!, que tinha poupado ao menos aquele pedaço de relíquia, maldito seja o romano) as lágrimas de gerações se misturavam há seculos. Um casal passou por ele carregando duas malas de mão -- explosivos? Seria possível que a resistência ainda estivesse articulada? Bobagem. O mundo já tinha voltado seus olhos para a crise da França, a luta, para os seculares, já tinha sido ganha. Era assim que se fazia, nos países modernos. Um macaco de Israel, aquela batalha nada tinha a ver consigo mesmo. Sua mãe não estava enganada. E a estrela de David não brilhava ali tão forte quanto na Judéia -- ela mal brilhava. Aquela Europa agressiva, que expulsara os judeus no século XV, aquele continente ingrato. "Se eu não me lembrar de ti, tu não te lembrarás de mim também", concluiu, sorrindo. Levantou-se, mergulhou no Sena e nadou contra a corrente até a nascente oculta do rio. Percorreu os lençóis freáticos misteriosos, conheceu a origem da água do mundo e, quando voltou à superfície, já estava no Mediterrâneo. Glória ao nome desconhecido! Embarcou, sem ser visto, em um barco pesqueiro no Adriático. Navegou clandestinamente até a Anatólia, onde parentes distantes o receberam e o encaminharam a Israel montado em um camelo, como um rei vitorioso. Chegou a tempo das celebrações em homenagem ao aniversário de um ano da guerra de expansão -- vitória de Israel. Já não se via árabe nenhum sorrindo nas ruas. Golã, Sinai, Jordânia. Quando entrou em casa, sua mãe o abraçou como já não esperasse vê-lo com vida. "Convertestes os francos?", perguntou-lhe? "Não, minha mãe, não converti ninguém. Mas descobri que sou apaixonado por Jerusalém e jamais me esqueci da cidade sagrada. Minhas mãos não se ressecarão, porque não há nenhuma alegria que eu prefira à ela", disse. Sorriram, os dois com lágrimas nos olhos. Rezaram 68 vezes pela glória de David e dos nomes desconhecidos de deus.

15 de abril de 2008

Outra felicidade

Quando optou pela fidelidade, o mandril percebeu um conhecimento que, mais tarde, enquadraria na categoria das coisas que não tinha aprendido com o ancião da tribo, mas com a experiência cotidiana -- a felicidade não precisava estar no amor nem na glória, nem nela mesma; era possível encontrá-la numa outra modalidade: a conjugal. Naquele dia, decidiu ser feliz para sempre.

11 de abril de 2008

Uma possibilidade

Naquele instante, percebeu que trair era mais que uma escolha. Era uma possibilidade. Sentia-se mais tranqüilo agora que esse pensamento tinha lhe ocorrido, havia uma espécie de calma em saber haver uma saída para aquele seu sufoco.

Quebrar o pacto era muito semelhante a obter vingança, se é que não eram duas coisas que se equivalhiam. E parecia-se muito com justiça. Ouvia a voz de um antigo amante dizendo, desesperado, suas últimas palavras de amor. "Ninguém vai lhe amar como amei". De fato.

Atravessaram a savana lado a lado, mas o pensamento deles não coincidia nos mesmos assuntos. Não havia carinho em comum para unir os dois embaixo daquele sol escaldante. Somente os mantia coesos uma antiga promessa de uma união inquebrável celebrada embaixo de uma antiga árvore africana. A promessa e o medo de quebrá-la.

Deram as mãos.

5 de abril de 2008

On the hands (2)

Now his hands had another meaning for him
Yesterday they were just two pieces of flesh and bones
But now they were the evidence of an unpredictable love
For out of a sudden another hand had been in touch with his hand
And another eyes had been in sight with his eyes
Which meant, or was supposed to mean, that the last year was now past
Future had saved for them many days of sunshine
And the decision was now between darkness and light
Even if the possibility of light would certainly lead to blindness
While darkness could maintain him in some sort of delightful sleepwalking
Deciding had now the taste of vinegar
Was like the vision of a burning sun coming towards the last planet on universe

3 de abril de 2008

Nas mãos


Olhava para as mãos quase como se contemplasse o anuário astronômico de 1968. A visão daquele membro parecia a ele a própria definição da complexidade da natureza, e a cada pêlo atribuía uma estrela -- conhecia quase todas pelo nome. Sorriu.

Bado sabia que, dentro dele, estava guardada uma energia deliciosamente passional. Não tinha vindo ao mundo para deixar de amar as coisas. Filtrava a percepção que tinha do mundo, fazendo com que tudo viesse a ele distorcido pela boa vontade dos apaixonados.

Não, ele não era como Shido. Não passava pela sua cabeça que a paixão deveria nascer premeditada e ser sempre tutelada pela razão. Não. Nunca admitira que o amor fosse um rio com foz conhecida - ao contrário, deveria correr para sempre, sem jamais encontrar a anulação de um mar o recebendo.

Shido, ele sim, acreditava que era possível viver sem estar apaixonado. Que depender de alguém era fraqueza. Tantas bobagens! Não, o amor era uma torrente louca impossível de ser evitada. Irresistível. E Bado se entregaria a ela sempre que viesse.

Para que controlar aquelas frivolidades, se eram magníficas por serem frívolas? O macaco não entendia. Não compreendia e nem fazia questão. Gostava da ignorância quase imbecil com que tratava os assuntos do amor -- porque entendia que aquele era um assunto não para ser pensado, mas sentido.

Nas suas mãos, viu o desenho de diversas constelações distantes dali. Tão distantes quanto a possibilidade de, naquele dia, naqueles tempos, talvez pelos dias restantes de sua vida... tão distantes quanto a possibilidade de aqueles pêlos ásperos mais uma vez alisarem outros -- ao se apaixonar irremediavelmente, naquele deserto ridículo, havia sido setenciado a jamais se libertar daquele amor que, por nunca se concretizar, prendia-o em uma vida sem carinho.

Não. Aquelas duas mãos jamais acariciariam outras mãos. Não tocariam de leve o rosto de mais nenhum macaco. Não abraçariam ninguém. Não fariam nada, a não ser servir-lhe de apoio na areia horrível das dunas amarelas do Egito.

Olhou para elas como se fossem o mapa do cemitério em que seria enterrado. Sorriu.

18 de março de 2008

14 de março de 2008

Labirinto


Marin sabia que certas visões só se pode ter durante os dias mais quentes do Saara. O calor é necessário. Portanto, no dia em que a atmosfera da África parecia febril, deitou-se em cima de uma duna amarela e fechou os olhos. Através das pálpebras peludas, via a luz impiedosa que vinha do sol.

O augúrio chegou ligeiro -- aterrisou na forma de um pequeno quarto sem janelas com três portas abertas em cada uma das quatro paredes. Um lustre pendia do teto com trezentas velas acesas, ocupando quase todo o espaço aéreo do ambiente. O chão gelado era um enorme bloco de ébano.

Sentado em uma poltrona, Bado estava naquele quarto. Marin olhou para ele piedosamente. Shido ia fechando as portas, uma a uma, pelo lado de fora, até que só restou uma porta para ser fechada.

Marin foi despertada por um vento repentinamente fresco. Suspirou, frustrada. Mas a visão interrompida não havia sido em vão. Tomando a cena como ponto de partida, vaticinou: "o quarto é o coração de Bado e as portas, suas escapatórias. Shido, a cada dia que passa, deixa o amigo mais e mais preso dentro de si. Em breve, não haverá mais solução".

Com senso de urgência, rabiscou um bilhete e pediu a um escravo, no Cairo, que levasse a mensagem até Bado. O mais rápido possível. E o bilhete dizia: "feche você a última porta, e pelo lado de fora; assim, talvez seja possível persistir".

11 de março de 2008

Relicário

Guardou aquela carta -- um pedaço de papel rasgado nos cantos em que alguém tinha escrito algumas letras do alfabeto latino -- como se fosse uma relíquia, e se agarrou a ela nos momentos mais difíceis. A assinatura no final da mensagem parecia conter todo o carinho que faltava no restante da vida dele.

10 de março de 2008

Dois suspiros

As coisas iam muito bem entre ele e Shido, mas, mesmo assim, Bado passava os dias esperando ouvir do amigo uma negativa. Sentia que se aproximava o momento de uma ruptura, e prometia a si mesmo que, caso acontecesse, Shido seria o seu último amor -- não aguentava mais viver naquele estupor, estava maduro demais para se apaixonar mais uma vez.
"Tão maduro que está podre, como uma fruta caída no chão", Shido completaria.
"Mas foi você que me fez apodrecer, com suas meias atenções", devolveria Bado.
Os dois teriam razão.
*
"Você não deve amá-lo pelo que ele conquistou, mas pelo macaco que ele é" -- as palavras de Marin ecoavam na cabeça enegrecida de Bado. Amar Shido exatamente no seu ponto nevrálgico, estar apaixonado pela essência escondida atrás de tantas aparências. Tentou aplicar essa máxima. Não conseguiu. De olhos fechados, visualizou o amigo, ali, na sua frente, montado em seu cavalo e vestindo a armadura escarlate. Shido, figura imaginada, carregava os estandartes do exército vencedor de Avec. Na coxa direita, trazia a cicatriz de uma flexa envenenada. Uma insígnia prateada enfeitava o pêlo do seu tórax. Bado tentou retirar do amigo aquelas suas cascas, à procura de um Shido primevo, na sua forma fenomenológica. Se conseguisse despi-lo do que vniha vestindo desde sempre, talvez conseguisse amá-lo pelo que era de verdade -- e o que era, de verdade? -- lembrou-se de Shido há algumas décadas, Shido quase sem pêlos, sem nada, sem uma cimitarra manchada de sangue nas mãos calejadas. Era impossível amá-lo naquela inocência. Marin não imaginava quão funda era aquela ferida no corpo dos dois, uma ferida que eram duas, dois cortes gêmeos. Bado desistiu do conselho.

2 de março de 2008

Paisagem Pintada com Macacos

De "Paisagem Pintada com Chá" (Milorad Pávitch):

Sabia-se que havia muito tempo ele se tornara um animal selvagem, em cuja sombra nem o vento soprava. Em algum lugar da África, avistara um daqueles macacos que podem ser vistos apenas uma única vez durante a vida e que, de vez em quando, passam para o outro mundo. Estendera a mão ao macaco, permitira que o animal o mordesse. Desde então, o beg pedia ao sacerdote que lesse a mordida do macaco estampada em sua carne

28 de fevereiro de 2008

Na corda bamba

[O Babuíno Voluntarioso fez uma pausa no seu diário para ler a aventura de Odisseu. Inspirou-se nela para escrever este capítulo]

- Eu tenho sido um bom macaco? Ou há alguma coisa que tenho feito em excesso ou em falta?, porque de forma alguma acredito que estejamos chegando a qualquer lugar.

Assim falou o orgulhoso Lvcien de faces quentes. O bem-aventurado Garrastazu respondeu-lhe com aladas palavras

- Que palavras escapam-lhe à barreira dos dentes, meu querido! O mercador árabe, quando um de seus camelos lhe cospe na cara, sente seu estômago revirar, tamanha a ingratição demonstrada; assim me sinto hoje, surpreso com o seu questionamento. Não chegamos ao ponto em que estamos à toa, e tampouco viemos a pé. Agora explique-me o motivo da sua pergunta, para que nunca se diga que o azulado Garrastazu trata mal aqueles que com ele se deitam em alvos lençóis para acordar apenas quando raiar a Aurora de róseos dedos.

O orgulhoso Lvcien de faces quentes colocou suas mãos peludas uma em cada face do bem-aventurado Garrastazu. Depois, disse-lhe:

- De fato não posso dizer ter sido mal recebido em seu solar. Mas, com alguns olhares, você parece querer me mostrar que não sou tão querido quando um dia fui. Cheguei a fazer-lhe mal?, responda-me, porque não posso mais suportar a dúvida que carrego em meu coração, como se fosse uma armadura de bronze pesada vestida em um velho que não a pode carregar.

Isso disse Lvcien, talhado no semblante tal qual os imortais. A Garrastazu, pareceu estar falando com Zeus pai ou Apolo frecheiro -- respondeu-lhe:

- Lvcien, seu pai lutou lado a lado com o meu nas violentas batalhas travadas em terras já esquecidas. Naquelas querelas, um laço de sangue uniu nossas duas famílias, laço este que não tenciono romper tão cedo. Não fale assim comigo, pois que seu coração me parece inflexível, quando ages assim. Faça o contrário: seja terno comigo, e devolverei a você a mesma ternura que me entregar.

Lvcien ouviu as aladas palavras de Garrastazu com dor no coração. Não duvidava do amor que os unia, mas tinha dificuldade em acreditar nele enquanto ainda não tivesse sido declarado. Deu a conversa por encerrado e disse que tinha vontade de libar aos deuses e oferecer-lhes hecatombes. Em seguida, banquetearam e, após terem expulso de si a vontade de beber e comer, foram dormir cada qual em sua alcova.

No dia seguinte, acordou antes que Aurora dos róseos dedos emergisse do Océano e iluminasse os homens. Vestiu suas belas sandálias, prendeu a capa roxa nos ombros e amarrou o gládio à cintura esguia. Pediu aos servos de Garrastazu que lhe dessem um cavalo, o mais rápido de todos, e nele partiu em direção ao norte.

26 de fevereiro de 2008

Escarlate

Percebeu que aquele macaco não seria o seu pelos dias restantes. Faltava nele alguma coisa. Apesar de amor inegavelmente sobrar, transbordar. Faltaria para sempre, porque aquele era um vazio na essência, e não no conteúdo. Dividiam a mesma caverna, o mesmo ninho, mas não compartilhavam seus maiores planos -- ela sonhava conhecer os palácios khmer, ele fazia questão de nunca pisar na indochina -- ficarem juntos para sempre significaria frustrarem seus futuros perfeitamente arquitetados. Não ousariam tamanho abandono. Nunca. E a gota de sangue que ele ejaculava todas as vezes que copulavam agora não significava mais nada além de uma infecção urinária.

14 de fevereiro de 2008

Rapidinhas

Juntamente com os pêlos que me tosaram, os pastores de macacos levaram de mim toda a felicidade do mundo.


Eu sou o macaco que caminha sozinho por todas as savanas. Ninguém me acompanha, sigo nu.


Eu sou o mui sábio legionário de Constantinopla -- com uma mão viro as páginas de um livro e, com a outra, desfiro golpes mortais com meu gládio de bronze.


Eu sou o coração partido da América, e a América inteira também -- abandonaram-me a minha própria sorte e morri diariamente por três séculos consecutivos.


Eu sou uma estrela no firmamento, brilhando para gerações futuras. Para mim, o tempo é apenas uma conjectura.


Eu sou o babuíno que chora com um olho e sorri com o outro. Ninguém me enxerga.


Eu sou o impulso desastrado que, de repente, derruba um castelo de cartas.


Eu sou as cartas que foram derrubadas -- pensei, um dia, ser um castelo.


Eu sou a espada fincada na montanha, e um rio escuro e lamacento escorre a partir de mim.


Já me apaixonei mais de uma vez. Morri em todas elas.


Eu sou nós dois deitados na areia do deserto, nós dois de mãos dadas e a ver estrelas.

Excalibur

Olaf nada esperava do parceiro, mas não entendia de onde é que poderia vir, para o outro, o amor. Pois, para ele, a fonte do sentimento nada tinha a ver com convivência ou um longo tempo de acknoledgment -- a origem do amor, para ele, só poderia ser oculta, um rio que surge de repente de uma ferida da terra.

Portanto, o macaco não esboçou nenhuma reação ao ouvir de seu amado que não contasse com nada vindo dele, exceto carinho e boa vontade -- só se conheciam desde a última primavera. Não esboçou nenhuma reação, mas concordou. Enquanto assentia, apático, imaginava seu próprio corpo como sendo uma espada belíssima fincada no chão; um rasgo na terra; vento brotando de um abismo de areia.

Abandonou-se a um desespero salgado, uma vaga de mar.

11 de fevereiro de 2008

Pernas ocultas

A lembrança mais recente que conservava era um pensamento triste: duas pernas peludas subindo as escadas e desaparecendo atrás da porta batida com força. A angústia o impossibilitava de sequer tentar acessar na memória as recordações dos momentos seguintes. E pouco se lembrava também do que quer que tivesse acontecido antes daquela cena (dois pés tão bonitos agora escondidos para sempre). Às vezes lembrava-se dessas coisas e, instantaneamente, ouvia algumas notas agudas soando em um piano imaginário. E pensava naqueles dois dias passados na praia. Quase conseguia sentir a língua do mar beijando seus pés gelados. A felicidade, de repente, doía bem fundo nele. Queria saber o motivo que tinha levado aquele par de pernas a abandoná-lo. Queria sabê-lo com todas as forças, mas, ao mesmo tempo, preferia continuar a esquecer tudo aquilo de uma vez por todas. Como uma doença, o esquecimento se apoderava dele. Já não havia amor nem entre eles e nem dentro dele - agora, o babuíno era um punhado de areia nas mãos de um nômade, e nada mais. Agora, o macaco era só um coração abandonado, ou o medo de abandonar-se. O primata era só dois olhos brilhando na escuridão, sozinhos, e a escuridão inteira os engolindo - ele não era nada que se assemelhasse a um babuíno. As pernas tinham ficado para trás, levado consigo até mesmo o conjunto completo das lembranças que, talvez, talvez pudessem trazer conforto ao pobre deixado para trás - como um bálsamo. Respirou devagar o ar quente da savana. Depois da lembrança das duas pernas escondendo-se atrás da porta de madeira nada havia, nem mesmo o próprio macaco. O amante, ao partir, tinha levado consigo não só seus pertences, mas alguma espécie de vitalidade que não lhe pertencia. Havia sido tão cruel que tudo o que poderia saber-se a respeito dele já foi esquecido.

Death is not

Talvez o pequeno macaco quisesse morrer. Distraia-se imaginando a morte, como se ela fosse alguma espécie de objeto, uma coisa. A morte poderia trazer alguma espécie de alívio àquele coração tão tão tão ferido. Seria como um beijo quente. Um gato dormindo no seu pé, de olhos fechados. Ronronando. A morte talvez fosse a sua melhor amiga - pelo menos, a mais fiel. Restava saber se ela seria pontual. E por que ela não vinha imediatamente? Não sabia, e talvez ela fosse sempre pontual exatamente por poder chegar a hora que quisesse. Enfiou a cabeça dentro do lago e contou os segundos até parar de respirar.

**

Maybe the little monkey was expecting to die soon. He would spend his days thinking about death as if she was a thing, not a happening - he liked to imagine it as a woman wearing white blankets, something similar to a ghost. And death would bring him some sort of relief, she could suddenly warm his oh so cold heart. As an unexpected friend's hug on an evening. A misterious letter recieved two days earlier containing a strange message written in an unknown alphabet. It was certain that she would come sooner or later, and his task - the only task he really had to acomplish in his entire life - was just to wait for her last kiss. She kissed him on september the first, that year. He fell in love with her.

31 de janeiro de 2008

A névoa é o final feliz

Trecho de "A Existência Novamente Reconstruída" (Mathias Segafredo, 2006):

“Está bem”, concordou, sem alternativas. Entregou ao príncipe a cravelha de madeira, seu único verdadeiro tesouro. O príncipe, por sua vez, a entregou ao babuíno, que gargalhou. “Agora diga”, Marco Antônio disse, dirigindo-se ao primata, “diga onde é que esta porcaria se encaixa”.

“Aqui”, o Babuíno Voluntarioso respondeu, pousando a mão na sua própria barriga e, antes que alguém pudesse lhe perguntar como assim?, ele abriu o ventre como se fosse um cofre e revelou as engrenagens rodando dentro dele, incríveis rodas dentadas movendo mecanismos minuciosos e delicados, como uma caixinha de música. “Aqui”. Inseriu a cravelha num buraco, próximo a dois fios transparentes esticados, e a girou um pouco, com cuidado. Fechou a portinhola. “Agora, a última valsa”, sorriu. “Eu já apareci a cada um de vocês, apareci um milhão vezes um milhão de vezes, e percorri todos os séculos agonizantes para finalmente lhes dizer que a existência chega a um fim”.

Um haikai em homenagem à evolução


Gorilinha peludinho
Gosto de você
Quero ser seu amiguinho

Mudança de planos

"Precisamos no ver mais uma vez", ordenou Shido, esquecendo-se de que Bado não era um legionário a seu serviço, mas um amigo antigo que acabara de reencontrar.

"Estou a caminho de Constantinopla. E você, para onde está indo? Vejo o estandarte de Avec. Talvez Cabul?", Bado respondeu.

"Você é sagaz. Cabul, sim. Eu estava a caminho da cidade amarela".

"Não está mais?".

"Não. Acabo de me decidir por Constantinopla", Shido respondeu por entre os dentes afiados.

A conversa não foi muito adiante, principalmente porque Bado não levou o amigo a sério. Mas, no dia seguinte, três legionários vieram logo de manhã avisar-lhe de que o general Shido o convocava. Foi conduzido à tenda do amigo, onde encontrou-o vestindo sua armadura vermelha, montado em um cavalo viril.

"Cavalgaremos para Constantinopla junto com você, meu caro amigo", Shido disse, "sua caravana está, a partir de agora, sob nossa proteção".

"Não é necessário", Bado tentou esquivar-se, apesar do gesto do general ter-lhe tocado num ponto visceral com uma ternura semelhante a de um pai protetor. "O caminho daqui até lá é curto e seguro".

"Mas este não é um convite", Shido respondeu, rindo. Sob os primeiros raios do sol, ele era irrecusável.

30 de janeiro de 2008

Se eu pudesse derreter seu coração

Trechos de "A Existência Novamente Reconstruída" (Mathias Segafredo, 2006).

Esticou o braço e tirou um papel, um único pedaço de papel, das mãos do boticário. Nele, se haviam escrito algumas linhas de um poema, versos ouvidos em devaneio, sussurrados então por uma voz fraca e inconstante. O babuíno os leu, concentrado, e ouvi-lo foi como se transportar para um outro lugar qualquer.

(...)

O babuíno terminou a leitura, pigarreou e levantou-se. Andando pelo quarto, quadrúpede, inquieto, parecia ser apenas um animal. Antes de chegar na porta, olhou para trás e disse ao boticário extasiado e desarmado: “Você é o visionário, mas não é o predestinado: não há nada reservado para você".

24 de janeiro de 2008

Macacafegã

Encostada em um pé de romã, Marin descansa da longa viagem. Depois de alguns dias de caminhada, finalmente chegou ao Afeganistão. Apóia a cabeça pelada na mão hirsuta e sonha imagens horríveis -- no sonho, é ferida mortalmente por uma alabarda amaldiçoada.
Acorda esbaforida. Levanta-se e olha ao redor. Vê somente ruínas empoeiradas.
Checa a barriga e vê que não está sangrando. Ainda está viva.
E faz a interpretação do sonho que julga a mais acertada, e a mais conveniente também: "o pesadelo é Shido, e a ferida é Bado. Preciso me apressar".
Dez minutos depois, está no topo do Hindukush conversando com as forças da natureza até então adormecidas.

20 de janeiro de 2008

Um sonho africano

The monkey is desperate
He jumps from branch to branch praying to some ancient deity to save him
He is getting the far as he can get from the hunter's lodge
The sound of his chaser's drums, he thinks, will never cease
As if the sound of the drums was the sound the hunter's heartbeat
The sound of that heart that would never stop beating
Maybe it would change, thou not interrupt, its pace
The huntsman is an imortal monster
The hunter has arrived in the savannah long ago and it does not seem that he is going away
His weapons are getting more dangerous each day
And as time passes by there are less and less baboons to serve as prey to him
The hunter is moving towards Africa's heart
Moving on
Staining the continent's map with the lines that demark his recently founded territories
Africa's heart is located on the center of the continent, within some woods
Maybe in Congo, Chade or Uganda
Defended by hairy gorillas that won't defend it, because they are too wise to resist
The hunter is a destructive monster that moves towards the black heart, he is a parasite, his heart will only stop beating when Africa's drums are silent
The monkey observes the hunter as he wakes up, kills and sleeps
The monkey sees, from the top of King's Pride, the tongues of fire licking the savannah
The monkey wants to be licked too
And someday he disappears, he goes to the Elephant's Cemetery - which has recently been oppened to each and every animal in need of refuge
Except for the huntsman
And there the monkey lives his last days
The other animals call him 'compañero' and they offer him revolucionary cocktails
He likes being there, but he lacks seeing the dirty teeth of the hunter devouring bloody flesh
He now thinks the reason of flesh is to be devoured
And he has this incredible idea, out of the blue
He starts by one of the fingers of one foot, then all of them
Then the foot itself, and the other one
And the two legs
And the fingers of the hand, the hands, the arms
The belly
Then he devours his own face, he devours his hunger
And rests an eternal dream that has no scalding sun neither poverty

17 de janeiro de 2008

Antínoo 01/02

Lvcien ouviu falar que, em terras ocidentais, nas florestas que já tiveram mil nomes e hoje se chamam Bolívia, havia surgido uma nova espécie de aranha - de uma noite para outra, os nativos tinham-na encontrado e juravam ser a primeira vez que a viam. Quem o avisara tinha sido Olaf, seu filho trotamundos. Disse dela numa carta datada de 130 d.C:

"É maravilhsamente agressiva e imprevisível, lembra-me o Babuíno Voluntarioso; como ele, a caranguejeira que os povos da floresta me mostraram aparenta trazer em si alguma espécie de ternura bruta cuja forma não é exatamente terna, mas seu contrário".

Nada mais Olaf falou da recém-descoberta aranha. Nenhuma palavra a respeito da sua coloração azul-prateada, seus pêlos espessos, suas pernas lentas e precisas. Não descreveu em trecho algum as quelíceras suculentas e graves, nem mencionou os olhos pretos e brilhantes, o cefalotórax, o abdomen, a fiandeira, os pedipalpos - não escreveu na carta que toda a complexidade e horrível beleza da natureza estavam naquele pequeno artrópode cuja matéria prima parecia ser, no final das contas, amor, e não átomos.

Nada mais Olaf falou da recém-descoberta aranha, mas tudo o que foi omitido Lvcien deduziu sozinho, porque conhecia quase todas as leis do universo e, dessa forma, para ele todos os acontecimentos já eram mais ou menos previsíveis.

Decidiu ver a tal criatura pessoalmente.

Uma vez na Bolívia, não foi difícil encontrá-la. Um sacerdote que Olaf havia mencionado em sua carta recebeu Lvcien em sua pequena vila e ordenou aos escravos que trouxessem a ele uma caranguejeira-antínoo (não era esse o nome que eles lha davam, mas é o único que consta nos registros do babuíno).

Pediu para ficar com a aranha como presente e recordação daquela aldeia; depois, partiu para os Andes levando-a consigo em um pote de ouro com tampa de jaspe.

Certa noite, libertou-a do cativeiro, colocou-a no pescoço e deixou-se ser aferroado. A dor foi maravilhosa. Pouco a pouco, o veneno espalhou-se pelo sangue denso do macaco, e horas depois ele estava morto sob um céu de poucas estrelas.

Os deuses de todos os cantos do mundo disputaram o privilégio de julgar o espírito de Lvcien. No final da querela, venceram Amon-Rá e sua trupe - naquela época eram poderosos os sacerdotes dos desertos egípcios.

O Devorador de Sombras, que pela frente é crocodilo, pelo meio leão e, por trás, hipopótamo, recebeu-o em uma sala escura, cercado de outras divindades antropozoomórficas. Um cheiro de poeira e terra molhada passeava pelo ar, e as cores pareciam ter perdido o brilho, como se estivessem envelhecidas.

(continua...)

11 de janeiro de 2008

Rafiki

Sentado na Pedra da Meditação, o mandril fechou os olhos, cruzou as pernas (pé direito na coxa esquerda, pé esquerdo na coxa direita) e estendeu as mãos com as palmas para cima. Relaxou.