Com o elmo escarlate embaixo dos braços, Bado abriu caminho pelas cortinas de seda do pavilhão de Sontag, recém erguido nas planícies da Gália. Uma fumaça incomum, densa e opaca, subia de velas espalhadas pelo chão e se concentrava nas partes altas da construção; amontoados em um canto, dois flautistas improvisavam música em baixo volume, melodia feita de notas polifônicas e desencontradas. O macaco sorriu, nervoso. Respirou do ar pesado.
A comitiva já estava em posição, à sua espera, amigos sentados no chão diante da comida espalhada no tapete persa. Sontag, recém-vindo de guerras bárbaras, herói de muitos louvores, o recebeu, agora de pé e de braços abertos, com palavras doces de boas vindas.
Falar em despedidas, naquela noite, não era uma possibilidade. Em acordo silencioso haviam decidido deixar tais palavras difíceis apenas para as dimensões silenciosas do pensamento. Assim, contaram histórias do antigo Palácio Azzuro e das hordas desmanteladas de Avec. Riram e choraram juntos lembrando-se de dias de mais glórias e de menos desconhecimentos.
Naquele momento, Shido era apenas uma sombra rondando o pavilhão, invejosa e esquecida.
Constelações deslizaram pelo firmamento e, aos poucos, uma luz alaranjada anunciou a chegada do sol -e, com ele, a iminência do adeus. Entre grunhidos, os macacos se levantaram, esticaram os músculos quase adormecidos e foram receber no rosto o vento frio da manhã, no exterior do pavilhão. A geada havia transformado as hastes da grama em pequeninas lanças de gelo.
Um a um, montaram seus cavalos e rumaram para o leste, de volta à vida que tinham deixado por alguns dias. Não olharam para trás, pois não era esse o costume entre eles.
Sontag ainda se demorou um pouco ali, em silêncio. De tempos em tempos dirigia seus olhos grandes para as montanhas distantes da lutetia parisiorum. Bado, com as mãos desajeitadas, não sabia se as deveria pousar nos ombros do amigo ou não. De repente, os dedos pareciam grandes demais para acalentar um velho conhecido.
Não demorou para que Bado fosse o único ali, diante da tenda agora vazia a não ser por boas lembranças. Sentou-se no chão e deteve-se a observar a agora líquida água do chão refletir a luz de um sol tímido.
Fechou os olhos e recitou de cor uma poesia que vinha ouvindo há meses em seus sonhos -às vezes em sussurros, às vezes em gritos desesperados. Desejou que ela tivesse sido escrita de verdade, e não sonhada. Mas sabia que esse pensamento era de uma grande frivolidade.
"These our actors,
As I foretold you, were all spirits and
Are melted
into air, into thin air:
And, like the baseless fabric of this vision,
The cloud-capp'd towers, the gorgeous palaces,
The solemn temples, the
great globe itself,
Yea, all which it inherit, shall dissolve
And, like
this insubstantial pageant faded,
Leave not a rack behind. We are such stuff
As dreams are made on"




















